A Leitura e Eu

Essays

Vejo a vida como se ela fosse um rio. Começamos nossa vida navegando em um cruzeiro. O navio é a alma de todos os que estão dentro dele: a família, a sociedade, os grupos de apoio, e os próprios indíviduos. A um certo momento da viagem, alguns saem ao mar em seu próprio barco e outros ficam no cruzeiro a vida toda. Mas não eu; meu barco foi feito bem cedo e saiu ao mar antes da minha primeira década de vida. Este barco é minha alma, e eu estou dentro dele.

Comecei meu contato com o mar de forma tranquila, com alguma literatura cristã infanto-juvenil e alguns clássicos da literatura infantil como Pinocchio, a Rainha Griselda. Rei Mateusinho Primeiro foi o primeiro livro que retirei da biblioteca da escola. Já bem distante do navio, éramos só o horizonte, o mar e meu barco.

Depois de meu primeiro livro de aconselhamento familiar cristão já podia distinguir alguns peixes, ouvir o som de alguns pássaros, ver o reflexo do sol na água e sentir o movimento das ondas. Com David Copperfield, já não conseguia enxergar o navio. Com As 1001 Noites – todos os seus 8 volumes, e com Tarzan – todos seus 13 volumes, o barco foi se aproximando da terra. Com O Senhor da Magia Negra, a força do afluente dirigiu meu barco rio abaixo, e fomos à toda. Com Conan Doyle, Agatha Christie, José de Alencar, Joaquim Manoel de Macedo, meu barco estava à mercê das ondas; muitas vezes quase viramos. Muitos autores depois disso, já estava no 2o colegial; este foi o ano marcado por 240 livros lidos. Foi um redemoinho terrível, esse que meu barco enfrentou. Na verdade, só o percebi depois que fomos atirados bem longe, ainda intactos. Assombroso.

No começo da minha vida adulta, e no mesmo rio, lia, na maioria, autores estrangeiros. Com Sidney Sheldon, Irving Wallace e alguns outros, meu barco esteve bem perto de bater nas rochas que saíam do leito do rio. Enfrentei uma pequena cascata, com Crime e Castigo. Digo pequena porque consegui sair; não terminei de ler o livro. Outro que não terminei foi a Montanha Mágica; depois de tantas emoções, metade do livro foi tudo que consegui aguentar de peitos chiando. Com Dean Koontz meu barco ficou preso nas algas marinhas; a custo consegui me soltar. Livre, prometi a mim mesma que nunca mais o leria. Quebrei a promessa uma vez, e depois nunca mais; a visão do barco preso nas algas é algo que ainda me apavora.

Já esgotada, aproveitando o remanso, curti a paisagem, com suas árvores, suas flores, seus pássaros e seus animais. Esta foi a época do Vestibular, quando me concentrei na literatura brasileira. Agora, meu barco segue bem devagar. Quero parar para ver os peixes, descobrir do que são feitos, quais as diferenças entre uns e outros, onde vivem, o que comem. Ainda tenho meus momentos de lazer, onde aproveito a vista, a frescura da água e a brisa. Esses são os momentos que atualmente divido com Mark Twain e com O Homem que Corrompeu Hadleyburg.

Um dia ainda vou mergulhar; ainda hei de ir lá no fundo, e verei as formações de corais e todas as belezas que vislumbro aqui de cima.

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