Autonomia

Essays

Os fins [da educação] variam, é certo, mas se quer sempre fazer do homem algo que ele não é, algo diferente; se quer moldá-lo segundo um esquema exterior, de certa forma, ao seu próprio ser. O que se quer, um últma instância, é subordinar o homem individual às crenças e aos interesses sociais, integrá-lo no ‘grupo’ e torná-lo, de algum modo, eficiente para a realização dos fins sociais. Diríamos que estas múltiplas proposições de fins de educação têm formalmente em comum a sua heteronomia, isto é, a subordinação da vontade e do ser individual a um ideal exterior ao indivíduo que se educa. (BARROS, Roque Spence M.)

Comente o texto acima, considerando, também, as implicações filosóficas de um ideal educativo voltado para a autonomia do educando.

Quando o Sócrates platônico compara o seu trabalho ao de uma parteira, ele, de fato, considera haver no educando conteúdos e saberes, conhecimentos e reflexões, nenhum dos quais necessariamente ‘escolares’; mas exatamente por ser necessário um agente externo que os tornem conhecidos ao próprio indivíduo que os abriga, nem mesmo o mais autônomo dos ideais da educação, ‘Conhece-te a ti mesmo’, é autônomo; e, no final, não é mais e eu pensando uma idéia; a idéia gerada como que ganha identidade à parte de quem a gerou. Tão à parte que ‘somos levados a pensar que há tantos Sócrates quanto discípulos socráticos’. Se o pensar é como dar à luz – daí a analogia socrática do mestre como parteiro, então as grandes idéias seriam as que, saindo do seu pensador, ganham sua própria identidade. Se o pensar é como dar à luz, então a autonomia buscada dever ser a autonomia da idéia.

A historicidade é um exemplo da separação entre o eu e sua idéia; só é possível analisar algo do qual não faço parte, ou minha análise estará comprometida. Manheim escreveu sobre isso, ao analisar a crítica política.

O conceito de modificabilidade do homem está baseado em sua historicidade; ‘o homem é um ser histórico’. Isto é, só é possível registrar aquilo que for passível de avaliação, e esta, por sua vez, requer um olhar crítico que apenas um sortimento de experiências permite. O homem é um ser cultural: as experiências mudam, o olhar muda e a avaliação muda; se a cultura é temporal, também o é o ideal da educação, já que ele é construído dentro da cultura. Se é temporal, é historiográfico; se é historiográfico, é modificável. Se é modificável, é educável.

O próprio espelho, que o autor compara à atividade do mestre, é cultural. O ato de olhar no espelho é cultural; só sabemos que olhamos para o nosso reflexo porque temos visto outras pessoas olhando o próprio reflexo; caso contrário, tomaríamos o reflexo por outra pessoa. Além disso, até o nosso olhar é dirigido por determinantes culturais. Quando o autor diz que o mestre ‘Quer, tão-somente, que cada um descubra a sua face e seja capaz de realizar os próprios fins com autonomia’, ora, isso equivaleria a dizer que deveríamos nos conhecer antes de olhar no espelho. No entanto, o que desenvolve a autonomia não seria o ato de olhar, mas o que fazemos com o que vimos no espelho.

Todos temos em nós um pouco de cada uma das pessoas que já passaram por nossas vidas; o que deveria aocntecer na educação é que, conhecendo-nos a nós mesmos, – e este, como vimos, não é um processo autônomo – descubramos o que é nosso e o que foi inserido, e então, com o desenrolar da nossa vida, decidir o que permanecerá e o que será descartado. Esta decisão é a autonomia; ela é conquistada pouco a pouco; não é um produto adquirido ao final de uma experiência. Ela deve ser testada, provada, experimentada, avaliada, ao longo da vida de cada um. Ela é desenvolvida.

Ao realizar meus fins, desenvolvo minha autonomia, e quem sabe, reavalio os tais fins, de modo a exercer minha individualidade. A autonomia não é o instrumento com o qual realizo meus fins, mas o alvo. E não é a autonomia da pessoa, mas da idéia. As condições providas pela heteronomia é o que permite a própria existência da pessoa. É impossível conceber uma vida autônoma. Tão impossível que para isso temos outro termo: divindade. Nem mesmo o pensar chegará à perfeita autonomia, ou pelo menos é o que dizem os psicanalistas. Nossa carga cultural é tão grande, a heteronomia é tão poderosa, que o pensar autônomo que admiramos varia em grau, não em presença. Se pudéssemos atingir O pensar autônomo, não precisaríamos distinguir Sócrates do Sócrate de Platão. Ou será que nem Sócrates atingiu a autonomia? E quanto a Platão? Se temos que fazer a distinção mencionada, é porque não sabemos até onde vão as idéias de Sócrates, e onde as idéias de Platão começam. Platão não atingiu a autonomia? Mas a grandeza e Sócrates é medida pela de Platão; tanto, que o que estudamos de Sócrates, foi o que Platão aprendeu. Se, ao olhar no espelho que era seu mestre, Platão viu-se a si e a sua história e, ao longo de sua vida, identificando o que era seu e o que não era, escolheiu o que permaneceria e o que jogaria fora – e do que ficou temos registro, através de seus escritos, então a autonomia simplesmente tem que ser da idéia; tem que ser ao longo da vida; e tem que ser um processo, não instrumento.

É a heteronomia que permite uma variedade de autonomias. A heteronomia é o ponto de partida para o desenvolvimento da autonomia. O homem nasce subordinado; nasce sem um esquema de seu próprio ser; o ideal daquele educador reprodutor das condições sociais, é sempre o ideal do educando. A prova é nossa vulnerabilidade ao peer pressure. Se todos nascessemos livres, seria ilógico falar em pressão sofrida por livres e que tivesse sido exercida por seus semelhantes. Enquanto tivermos nossas atitudes como individuais e não como construções do coletivo, não poderemos começar a construção da nossa autonomia. A autonomia tem início quando começamos a distringuir entre ‘outros’ e ‘eu’, entre variedades de esquemas, entre reproduções de ideais. Mas isso só é possível quando temos um ponto de partida.

Quanto à questão da bondade versus vício, isto é, da responsabilidade da heteronomia: delimitar as fronteiras do aceitável, delimitar as bordas da autonomia. Para os excessos, criamos leis, sanções, exílios. Mas não é a heteronomia quem os cria (os excessos). É nossa imaturidade ao lidar com liberdade de pensar autônomo.

Uma educação que considere a autonomia do educando implica em o educador:

  1. aceitar comportamentos diferentes – se queremos que os alunos testem idéias
  2. permitir interesses diferentes – se queremos que os alunos tenham idéias para testar
  3. desencadear pensamentos diferentes – se queremos que os alunos descubram que é possível ter idéias
  4. atuar em formatos diferentes – se queremos que os alunos comecem identificar construções de idéias
  5. olhar-se de tantos modos diferentes quanto possível – se queremos olhar nossos educandos e suas idéias filosoficamente.

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